Edição 7, de 20 de junho de 2008

Internet, sexo, compras e jogo podem causar dependência

Francine Mantovani e Regina Gonzalez

O que caracteriza uma pessoa como viciada é a perda do auto-controle sobre determinados comportamentos. O Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) é um setor do Departamento de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na Vila Mariana, que cuida desse tipo de distúrbio. Inicialmente destinado a atender dependentes de substâncias químicas lícitas (álcool ou medicamentos) ou ilícitas (cocaína, maconha, etc.), com a crescente demanda, o espaço ampliou a sua esfera de ação por meio de projetos experimentais e começou a atender pacientes dependentes de substâncias não-químicas, abrangendo jogo patológico, sexo compulsivo, Internet e compras.

O vício é um hábito. Ao contrário da virtude, ele caracteriza uma disposição para a prática de algum ato nocivo e pode se tornar um distúrbio crônico, trazendo complicações graves.

 


Internet em excesso pode virar vício –
Foto: Francine Mantovani

Estudos mostram que viciados em sexo, por exemplo, não fazem sexo por prazer, mas por obrigação, prejudicando sua vida social.

Em entrevista à revista Pesquisa FAPESP on-line, o psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico da Universidade de São Paulo (USP), explicou que a fissura (vontade doentia que leva os dependentes a reincidir no seu vício) que é experimentada pelo apostador compulsivo é de uma magnitude 50% maior do que a vivenciada pelo alcoólatra.

E nem todo mundo sabe, mas a Internet já é classificada entre os tipos de entretenimento que conduzem ao vício: existe uma linha tênue entre a mania de estar conectado e a doença. Tem gente que senta no computador para fazer um trabalho, mas dá uma passadinha pelo MSN para ver quem está on-line, entra no Orkut para saber se tem novos recados e, quando vai ver, já se passaram horas de conexão.

De acordo com a psicóloga do Proad Thaís Grace Maluf, ainda existem poucas publicações no Brasil a respeito desse tema e também poucos centros de pesquisa e tratamento. Em São Paulo, além do Proad, só a Faculdade de Medicina e o Instituto de Psicologia da USP e na Pontifícia Universidade Católica (PUC) pesquisam e tratam desses desvios comportamentais.

“O tratamento é predominantemente ambulatorial, similar ao usado para as drogas. O paciente passa por um Grupo de Acolhimento e depois por uma avaliação com um médico psiquiatra. Após esse estágio inicial, é feito um projeto individualizado, quando os pacientes podem ser encaminhados, conforme o caso, para um grupo psicoterápico ou terapia individual”, diz Thaís.

Esse programa prevê também atendimento aos familiares, e o tempo de tratamento varia, dependendo da melhora na qualidade de vida do dependente. “Embora muitas questões relativas ao tratamento de dependentes não químicos ainda necessitem de esclarecimentos, o programa do PROAD está se mostrando eficaz, pela melhora no padrão dos comportamentos que têm sido apresentados” conclui a psicóloga.

Tanto a virtude quanto o vício são, em parte, inatos ou adquiridos. São inatos quando encontram em nós uma predisposição genética para a prática. Adquiridos, quando se desenvolvem por concessões nossas ou influências externas do ambiente. Mas vício é vício, e uma vez instalado, devemos tratar de combatê-lo. Existem duas espécies de viciados: os assumidos e os enrustidos.

O ator Wyndsan Burneth, 28 anos, é um comprador compulsivo assumido. “Às vezes vou ao shopping para passear, vejo alguma coisa que nem preciso, não resisto, compro e muitas vezes, nem uso. Ou então entro numa papelaria para comprar um lápis e acabo saindo de lá com um monte de inutilidades, gastando muito mais do que deveria e geralmente, me arrependo depois”, conta. Wyndsan afirma que isso costuma acontecer quando ele está em situação de estresse, com alguma coisa para resolver, e pensa seriamente em procurar ajuda antes que o problema se agrave.

O tratamento no PROAD é gratuito e disponível a qualquer pessoa.

Serviço
PROAD – rua dos Otonis, nº 887  - Vila Clementino. Tel – 5579-1543

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