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Palavra do Reitor

E Ele continua vivo no meio de nós!

 

Uma ‘condensação’ de acontecimentos importantes que dizem respeito à vida de Jesus marca essas duas semanas para os católicos, e para a qual, eu, como reitor de uma instituição confessional, não poderia deixar de lhes chamar a atenção. O período começa domingo dia 2 de junho, com a Ascensão do Senhor, passa pelas festas de Pentecostes e Santíssima Trindade e culmina na celebração de Corpus Christi, este ano comemorado dia 20 de junho.  

Igualmente vale destacar que, festejados por toda a Igreja Católica, tais eventos não são prerrogativa apenas dela. Como nos esclarece a Constituição Dogmática Dei Verbum Sobre A Revelação Divina, eles dizem respeito ao mistério que envolve a pessoa de Jesus Cristo e “aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer (a todos) o mistério da sua vontade (cf. Ef. 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr. Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4).”

Tanto que, em evidência nesse período, temos, de 2 a 9 de junho, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, e que, não por acaso, se dá entre as festas da Ascensão e de Pentecostes e para a qual reservamos um momento de reflexão no UNIFAI (noite de 3 de junho). Ainda que na segunda metade do século XIX, tenha havido indícios de um movimento de diálogo ecumênico, na Europa, foi somente em 1895, com a Encíclica Provida Mater, do Papa Leão XIII, que a Igreja católica reservou em seu calendário litúrgico um tempo especial de reconciliação dos cristãos. Pouco antes da abertura do Concílio Vaticano II (1962), o papa João XXIII criou o Secretariado Romano para a Unidade dos Cristãos. E a partir de 1968, a Semana de Oração passou a ser preparada conjuntamente pelo Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos e o Conselho Mundial de Igrejas, até os dias atuais.

Quem acompanhou a liturgia do domingo, 26 de maio, vai se lembrar das leituras – a segunda, do Apocalipse de João, mostrou a Jerusalém-celeste, aquela que brilha por si mesma. Nesta cidade, não há templo algum, pois não existe mais a necessidade de mediações religiosas. As pessoas que ali habitam e que contemplam a Deus em espírito e verdade se tornaram os verdadeiros templos, morada do Senhor. João a descreve protegida por muralhas, porém aberta a todas as nações. De suas doze portas – três para o lado do oriente, três para o lado norte, três para o lado sul e três portas do lado do ocidente – uma luminosidade se expande sobre todos os povos. (cf Ap, 21).

Ainda nesta liturgia que antecede a Ascensão, São Paulo, nos Atos dos Apóstolos, nos alerta para o essencial da mensagem cristã. A leitura mostra que alguns cristãos, de matriz judaica, vindos de Jerusalém, se apresentaram como enviados dos apóstolos, impondo a circuncisão (“vós não podereis salvar-vos se não fordes circundados, como ordena a Lei de Moisés” - At 15,1). É sabido que a circuncisão é para os judeus um sinal de aliança do seu povo com Deus. Para os cristãos vindos do paganismo, parecia como uma agressão (“castração”). Isso causou uma grande confusão na comunidade de Antioquia. Paulo e Barnabé, depois de se reunirem com os outros apóstolos em Jerusalém (primeiro concílio da Igreja), decretam não impor às primeiras comunidades senão o essencial à vivência da mensagem cristã, visando mais à convivência fraterna dos diferentes povos do que a salvaguarda de suas tradições (Cf. At 28).

A festa da Ascensão pode ser entendida como a passagem das comunidades cristãs à maioridade do povo de Deus. Lembra o anjo querendo saber dos “homens da galileia, o que estão fazendo olhando para cima? Esse mesmo Deus que lhes foi tirado vai voltar em toda a sua glória.” (At 11). O Evangelho mostra o “Discurso de Despedida e de Promessa”, discurso de esperança e de recomendações para a continuidade de sua missão a partir da vivência e do testemunho.

Conhecedor dos desafios que os cristãos teriam pela frente, Jesus promete-lhes o Defensor, o Paráclito (παράκλητος, em grego). Naquele momento – não muito diferente de agora – os discípulos não sabem muito bem para onde ir, ficam um pouco temerosos, angustiados, mas se mostram unidos, se colocam abertos para tentar entender, discernir o que Deus deseja deles. É quando se manifesta o Espírito (Pentecostes). Igualmente hoje, é o Espírito que nos lembra, diante de tantos desafios, os ditos e atos de Jesus. E diante daquilo que o mundo nos apresenta, somos chamados a agir com o mesmo espírito que animava Jesus, diante de novas situações que não são as mesmas que ele enfrentou.

Enquanto Ele não volta, é hora de pararmos de olhar para cima. Olhemos para frente, tornemos realidade em nosso mundo o projeto por Ele anunciado a todas as nações. Mas ainda não estamos na Jerusalém celeste, precisamos de mediador. Por isso e porque nossa missão é tão desafiadora quanto na época das primeiras comunidades cristãs, é que devemos permanecer unidos, em atitude de abertura e humildade. E como prometido por Jesus, o Espírito virá como aquele que vai “ensinar todas essas coisas”, coisas que Ele ensinou e que também nós estamos com dificuldades de compreender... Ele fará a memória de suas palavras (Jo 14,26).  

O processo de transformação desse mundo passa pela busca do entendimento do que hoje é essencial para viver o projeto de Jesus, agora e rumo à Jerusalém-Celeste. Nós ainda não estamos nessa fase, mas almejamos chegar – quem chegará? Um dia chegaremos. Continuar a missão significa viver e testemunhar as palavras de Jesus, “palavras que vêm do Pai” (João 14,24). Essa vivência e testemunho se constituem numa relação de amor: amor a Deus e amor ao próximo.

Após a Ascensão, imbuídos do Espírito Santo, celebramos o grande mistério da Santíssima Trindade. E encerrando o ciclo de festividades que lhes falei no início, enaltecemos, com a celebração de Corpus Christi, a pessoa de Jesus, pois só nos é possível compreender o mistério de Deus Trino por meio dEle, pelo que Ele nos revelou.  E é na Eucaristia que Ele continua vivo no meio de nós.

 

São Paulo, 30/05/2019

Reitor

Prof. Dr. Pe. Edelcio Ottaviani

Reitor do Centro Universitário Assunção - UNIFAI