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Palavra do Reitor

SINAL DE TEMPOS QUE ESTÃO POR VIR

 

Minha palavra com vocês desta vez traz um tema palpitante, o Sínodo da Amazônia, sobre o qual se debruça a Igreja Católica e sobre o qual também eu me dediquei em uma explanação no VII Congresso da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião, realizado de 17 a 20 de setembro, no Rio de Janeiro. Ao lado dos professores doutores Rudolf von Sinner (PUCPR) e Clodomir Barros de Andrade (UFJF), debati, no dia 19, o tema “Questão socioambiental: estado da arte e perspectiva para a Área 44 (epistemologias)”.

Inicialmente, é bom lembrar que o Papa Francisco tem utilizado em várias ocasiões o termo “Sinal dos Tempos” quando quer se referir aos muitos desafios de nossa contemporaneidade. Ele o utilizou, por exemplo, em mensagem no Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, em 14 de janeiro de 2018, para externar preocupação pela triste situação de tantos irmãos que fogem das guerras, das perseguições, dos desastres naturais e da pobreza.

Francisco diz: “Os tempos mudam; é justamente a sabedoria cristã a conhecer estas mudanças, conhecer os diferentes tempos e também os sinais dos tempos." Mas como ‘conhecer os sinais dos tempos’, como nos propõe? Ele próprio nos responde: "os tempos fazem o que devem: mudam. Os cristãos devem fazer aquilo que Cristo quer: avaliar os tempos e mudar com ele, permanecendo ‘firmes da verdade do Evangelho’. O que não se admite é o tranquilo conformismo que, na prática, nos deixa imóveis".

É para induzirmos a sair dessa imobilidade que o Papa nos lançou o desafio de perscrutar os Sinais dos Tempos neste momento de denúncias de queimadas e devastações, de mortes, perseguições e exploração dos povos amazônicos. Ou seja, para além do fluxo migratório – e atendendo ao apelo de várias conferências episcopais latino-americanas que buscam novos caminhos para a evangelização da Amazônia –, nos convida a também escutar os povos da maior floresta tropical do mundo e pensarmos conjuntamente um projeto econômico sustentável que beneficie a todos e seja remédio para os males causados ali à flora e à fauna. É esta a síntese do Sínodo da Amazônia.

Particularmente, penso que, como os clamores são muitos, podemos juntar a ele os das regiões atingidas pelo rompimento das barragens da Vale, em Bento Rodrigues e em Brumadinho (Minas Gerais). E, ainda, proponho observarmos os Sinais dos Tempos nos escombros e cinzas de centenas de milhares de anos de história, que se achavam arquivados e semicatalogados no antigo Museu Nacional do Rio de Janeiro. Um incêndio, em setembro de 2018, consumiu 90% do maior acervo de história natural do Brasil; ali, se perderam não somente fósseis, documentos, achados arqueológicos, mas modos de agir e de pensar de outras épocas e culturas. Guardiões do arcaico, os arquivos, que mantinham viva uma fonte inesgotável de inspiração para criar possíveis caminhos, viraram cinzas, tornando mais pobre nosso futuro e menos inspiradora nossa esperança. A pergunta é: faremos o mesmo com a materialidade incorporal da selva amazônica, arquivada na mente e nos corpos de cada povo indígena, fonte de conhecimento para o “bem viver”? (Cf. Instrumentum Laboris, cap. VII, n. 86, 88 e 90).

            Insisto em dizer que fluxo migratório, queimadas, devastação e extermínio de povos, rompimento de barragens, incêndio de museus são como os fios aparentemente desconexos no verso de um bordado que tem como insígnia a razão neoliberal. Sob o leitmotiv “aumento de lucros e diminuição de custos a qualquer preço”, ela instaura uma cruzada contra o modelo econômico do Estado de Bem-estar social (Welfare State), por entendê-lo um mau exemplo de gestão empresarial.

Ouso afirmar que migração, queimadas, devastação e extermínio dos povos indígenas, rompimento de barragens, incêndio de museus não são Sinais dos Tempos, mas a manifestação de um único acontecimento, a razão neoliberal, um modelo empresarial subjetivado, assimilado pelos mais diferentes sujeitos, do proprietário (ou sociedades proprietárias dos meios de produção) ao mais subalterno dos funcionários. Para as vítimas desta lógica empresarial – os que sucumbiram nessas tragédias, porque soterrados ou assassinados, ou os que foram lesados por elas (os desabrigados, perseguidos e explorados) e que perderam parentes, bens e referências – a lógica neoliberal é um acontecimento que instaura e move um mundo do qual eles querem se livrar, mas não sabem como. Antes, ela própria é como um Sinal dos Tempos, que desperta o desejo e a esperança de outro mundo, à espera do momento oportuno para se efetivar.

A cada um de nós, portanto, urge identificar o que distingue o nosso presente em face de outras épocas e qual o espaço de que dispomos para enfrentar os muitos desafios à luz dos ensinamentos de Cristo, tanto pelo anúncio do Evangelho quanto pelo modo como testemunhamos nossa fé.

São Paulo, 04/10/2019

Reitor

Prof. Dr. Pe. Edelcio Ottaviani

Reitor do Centro Universitário Assunção - UNIFAI